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John Neschling regente


Gravada em abril de 2000 na Sala São Paulo

Lançado em CD pelo selo Biscoito Fino

Beethoven precisava de uma nova abertura de concerto para uma apresentação pública que planejava para 1807. A música incidental composta para o balé As Criaturas de Prometeu, que utilizara anteriormente para esse fim, estava desgastada pelo uso e, além do mais, seguia o estilo clássico do qual ele se distanciava rapidamente.

A história de Coriolano, o herói de Plutarco, que Shakespeare transformara numa famosa tragédia, forneceu a inspiração de que Beethoven precisava para compor a nova abertura. Porém não foi na tragédia de Shakespeare que Beethoven se baseou, e sim no drama sobre o mesmo tema que o dramaturgo austríaco Heinrich von Collin havia recentemente criado.

Beethoven encontrou na tragédia de Coriolano um farto material ideológico de ressonância com a retórica heróica da sua música deste período. Na busca de renovação estilística, Beethoven havia se deixado influenciar pelo estilo heróico e grandiloqüente da música praticada na França por Gossec, Grétry, Kreutzer, Méhul e principalmente Cherubini. A afinidade da Abertura Coriolano com a música parisiense do período pós-revolução francesa foi reconhecida já no tempo de Beethoven pelo famoso crítico E.T.A. Hoffmann que apontou a influência de Cherubini nos materiais usados nesta obra.

Na Abertura Coriolano, diferentemente de outras obras do período heróico de Beethoven, como a Abertura Egmont e a Quinta Sinfonia, o desfecho não é redentor. O tom desafiador do personagem e sua energia passional, expressos ao longo da obra por uma inexorável propulsão rítmica, acabam cedendo lugar no final às conotações de morte e pesar. Isso é expresso na coda pela fragmentação progressiva do material temático e pela dissolução do impulso rítmico, indicando o fim trágico do protagonista.

É interessante observar que já na Cantata para a Morte de Joseph II, obra de ocasião para as exéquias do imperador, escrita na juventude em Bonn, Beethoven criara um certo inventário de figuras musicais que, desde então, passaram a representar para ele o sentimento de morte. Elas reaparecem tanto na Abertura Coriolano quanto na marcha fúnebre da Sinfonia Eroica e na Abertura Egmont.

A Abertura Coriolano acabou sendo estreada naquele mesmo ano de 1807, num concerto no palácio de um de seus patronos, o Príncipe Lobkowitz. Beethoven ainda fez figurar no mesmo programa a Quarta Sinfonia e o Concerto nº 4 para Piano e Orquestra, dando uma demonstração inequívoca da impressionante energia criativa que o animava naquele período.

 Rodolfo Coelho de Souza é compositor, doutor em composição pela University of Texas at Austin e professor da Universidade de São Paulo – Ribeirão Preto.
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John Neschling regente


Gravada em maio de 2004 na Sala São Paulo

Lançado em CD pelo selo Biscoito Fino

No verão de 1812 Beethoven deixou Viena e viajou para o balneário de Karlsbad, na Boêmia. Essa viagem teve uma motivação especial, além do descanso na aprazível estância. Lá Beethoven finalmente concretizou um ansiado encontro pessoal com o grande escritor Johann Wolfgang von Goethe. O que terá acontecido quando finalmente os dois gênios se encontraram? Não se sabe. Nenhum deles deixou um relato do encontro e nem se sabe de outra pessoa que o tivesse testemunhado.

Dois anos antes, Beethoven passara pelo auge de seu interesse pelos escritos de Goethe e compusera, além da música incidental para a tragédia Egmont, diversas canções sobre poemas do autor. Uma amiga em comum, Betina Brentano, tentara aproximá-los, enviando ao escritor as músicas que Beethoven compusera, mas o encontro foi protelado. A composição da música incidental para o drama Egmont de Goethe ocupou Beethoven durante toda a primeira metade do ano. Lutando contra seu perfeccionismo, Beethoven desdobrou-se para que a obra ficasse pronta para a estréia da peça em junho. 

 O esforço foi recompensado e Egmont acabou como um dos mais bem sucedidos empreendimentos do compositor no gênero. Esta abertura demarca o auge do seu período heróico, que se iniciara em 1803 com a Terceira Sinfonia, quando a surdez ainda não se abatera integralmente sobre ele, e que se prolongaria até os eventos de 1812 acima mencionados.

Apesar de momentos nebulosos, os fatos que cercam o encontro entre Beethoven e Goethe nos deixam vislumbrar algumas informações curiosas. Beethoven, que outras vezes foi caracterizado como um músico obcecado pelo seu ofício e desinteressado de tudo mais na vida, aqui aparece como um ávido leitor dos grandes escritores da poesia, dramaturgia e filosofia do seu tempo, nutrindo grande admiração por Goethe, Schiller e Schelling. 

Mais surpreendente é a notícia de que, por sua parte, Goethe pouco compreendeu da genialidade de Beethoven ao colocar em música suas poesias. Goethe declarava francamente que, quando se tratava de seus textos, preferia as composições singelas, de caráter popularesco –talvez pelo fato de tais autores, pouco criativos, acabassem por valorizar mais seus textos ao manter a música num plano subalterno.

A exacerbação da dimensão mítica e simbólica da música de Beethoven nesse período serviu magnificamente à composição de uma peça que inclui elementos narrativos e descritivos. O drama de Egmont trata da história de um conde flamengo que orgulhosamente aceita sua condenação à morte, em decorrência de um frustrado levante contra os espanhóis, como um sacrifício pessoal em troca da liberdade de seu povo. Beethoven certamente encontrou nessa história ecos de sua determinação em superar o drama pessoal da surdez através da dedicação integral à música. 

Exemplo de uma linguagem embrião, um momento freqüentemente comentado ocorre quando o corte abrupto da frase lírica dos violinos, seguida de pausa, simboliza a morte de Egmont pela lâmina do algoz. Diversas outras passagens, de calculado simbolismo, fazem desta obra um dos mais efetivos exemplos da história da música programática.

Rodolfo Coelho de Souza é compositor, doutor em composição pela University of Texas at Austin e professor da Universidade de São Paulo – Ribeirão Preto.