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Victor Hugo Toro regente


Alberto Nepomuceno
I. minueto
II. ária
III. rigaudon

Gravada em março de 2008 na Sala São Paulo

A Orquestra Filarmônica de Berlim, fundada em 1882, havia tido, desde 1887, como regente principal, Hans von Bülow, o lendário parceiro de Wagner e Liszt na defesa da “música do futuro”. No início de 1894, a Filarmônica de Berlim estava de luto com a notícia da morte de von Bülow no Cairo, quando Alberto Nepomuceno, um jovem brasileiro de 29 anos, subiu ao pódio da orquestra para reger a estréia de duas peças de sua própria autoria, a Suite antiga para cordas e o Scherzo para grande orquestra.

Nepomuceno estava em Berlim havia dois anos, graças a uma bolsa do recém empossado governo republicano brasileiro. Matriculara-se no Conservatório Stern -a mesma escola em que Schoenberg trabalharia anos depois- para estudar composição com Arno Kleffel e antes dele com Heinrich von Herzogenberg, de quem Brahms era mentor intelectual. A apresentação com a Filarmônica de Berlim foi a prova final de Nepomuceno no Conservatório. Desde a fundação da Orquestra, diversos compositores haviam regido suas obras à frente da orquestra, entre eles Johannes Brahms, Edvard Grieg, Richard Strauss e Gustav Mahler. Nepomuceno conheceu todos eles. Os dois primeiros tiveram influência fundamental na sua formação e os dois últimos foram seus interlocutores em momentos importantes de sua carreira.

As principais discussões estéticas da época opunham, de um lado, a corrente wagneriana e, do outro, a corrente formalista, da qual Brahms era o principal expoente. A primeira dizia fazer a “música do futuro”; da outra dizia-se que fazia a “música do passado”, porque buscava nas formas clássicas e barrocas os modelos para a criação contemporânea. A Suite antiga de Nepomuceno, ao seguir o modelo da Suite Holberg de Grieg, filia-se à escola formalista. Inclui uma ária e duas danças barrocas francesas -um minueto e um rigaudon- estilizados na linguagem romântica.

Nepomuceno havia tido um primeiro contato com a música de Grieg em 1891 quando viajara a Viena para assistir um concerto de obras de Brahms regido por Hans von Bülow e tomar aulas de piano com Theodor Leschetizky, um discípulo de Czerny. Na classe de Leschetizky conheceu Walborg Bang, uma pianista norueguesa aluna de Grieg, pela qual se apaixonou. Walborg deu para Nepomuceno uma cópia da Suite Holberg de Grieg para piano. Em 1893 Nepomuceno e Bang casaram-se em Oslo. Por essa ocasião, Nepomuceno já havia composto sua Suite antiga que tocou na casa de Grieg, em Bergen. A obra seria seqüentemente publicada pela editora norueguesa Brödene Hals.

Todavia a orquestração da Suite antiga de Nepomuceno transparece mais a assimilação do estilo de Brahms do que a influência direta da técnica de orquestração de Grieg. Por exemplo, Grieg supera, através da reformulação, a dificuldade de transcrever para cordas a escrita idiomática para piano do Prelúdio. Nepomuceno contenta-se em omitir o movimento.

Outros compositores, depois de Nepomuceno, também escreveriam suítes “ao estilo antigo”. Maurice Ravel, em 1914, comporia seu Tombeau de Couperin com três movimentos bastante semelhantes aos de Nepomuceno. Villa-Lobos, em seu período neoclássico, escreveria suas Bachianas brasileiras, empregando modelos que transparecem uma influência direta da Suite antiga de Nepomuceno.
 
Rodolfo Coelho de Souza é compositor, doutor pela University of Texas at Austin e professor da ECA-USP-RP.
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Victor Hugo Toro regente



Gravado em setembro de 2008 na Sala São Paulo
Antônio Francisco Braga, o compositor do nosso Hino à Bandeira ―sobre versos de Olavo Bilac― por sua modéstia, sensibilidade e extrema competência, marcou, de forma indelével, o cenário musical brasileiro na primeira metade do século XX.
Tendo sofrido privações na infância e sido internado em um Asilo de Meninos Desvalidos aos oito anos, foi estimulado pelo diretor da instituição ao estudo do clarinete. Posteriormente, conseguiu realizar cursos de harmonia e contraponto. Cedo, começa a compor, além de dirigir a banda do asilo. Aos 19 anos, estréia sua primeira obra orquestral, a Abertura fantástica, no Theatro São Pedro, no Rio. Continuou atuando como mestre da banda e professor no asilo por mais alguns anos, quando, em 1890, é contemplado com uma bolsa de estudos para a Europa. Despede-se com carta ao diretor: “Como não seria grato quem, entrando pobre para um estabelecimento de caridade, sai rico de instrução e felicidade?…”

Na França, recebe o apoio de Jules Massenet, com quem estudou, após obter o primeiro lugar entre 25 concorrentes à admissão no Conservatório de Música de Paris.
A partir de 1895, apresenta suas composições na Galérie des Champs Elysées e em outras salas de concerto. Após estudar em Viena, fixa residência em Dresden, na Alemanha, onde se daria a possibilidade de apresentação de sua ópera Jupyra. Volta ao Brasil, ao ser convidado a encená-la durante as comemorações do IV Centenário do Descobrimento. Com grande sucesso, em 10 de agosto de 1900, deu-se a primeira récita de Jupyra, no Theatro Lírico do Rio. O público exigiu inúmeras reapresentações.
Compositor versátil, Francisco Braga exerceu a cátedra de contraponto, fuga e composição no Instituto Nacional de Música (atual Escola de Música/UFRJ), ao qual doou seus manuscritos. Fundador do Sindicato dos Músicos, atuou em diversas áreas da cultura. Regente e professor em orquestras civis e bandas de música militares, foi o primeiro maestro titular da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Ao festejar seu 63º aniversário, o compositor foi condecorado pelo governo francês com a Legion D’Honneur, no grau de cavaleiro.
O belo manuscrito da pavana Madrigal, datado de novembro de 1901, nos remete ao século XVI, quando essa dança se instituiu como a única forma musical que admitia música de câmara. A harmonia era franca e livre, sem artifícios estranhos, e as partes se moviam todas com igual independência umas das outras, o que permitia maior variedade na forma e no estilo. Foi a partir de então que, sob a influência do madrigal, se iniciou o rompimento dos laços que aprisionavam a música profana à música religiosa. Braga utiliza esses recursos de extrema liberdade em seu Madrigal, partindo da introdução, em Dó maior ―com insistência dos desenhos na dominante―, e resolvendo na tônica, que, por sua vez, será a dominante do tema principal, em Fá maior. Construído com singeleza, este Madrigal nos revela a própria essência da personalidade do seu compositor.
Maria Célia Machado é harpista, mestre em Educação pela UFRJ e integra o Trio D’Ambrosio e a Orquestra Brasileira de Harpas ―ambos projetos de sua autoria.