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John Neschling regente


Wolfgang A. Mozart
- Abertura

Gravada em dezembro de 2006 na Sala São Paulo
Sob encomenda do intendente da corte de Munique, Mozart compôs a ópera Idomeneo, estreada em 29 de janeiro de 1781 no Residenz Theater, hoje Cuvilliés, daquela cidade. O libretista, Gianbattista Varesco, abade da capela da corte em Salzburg, baseou-se no Idomenée, escrito pelo professor de retórica e teatrólogo Antoine Danchet e musicado por André Campra. Idomeneo (Idomeneo, rè di Creta) é um dramma per musica em três atos, abertura e 32 números, dos quais dois são balés. Em cena, sete personagens (entre eles Idomeneo, rei de Creta; Idamante, seu filho; Ilia, princesa troiana; e Elletra, princesa de Argos, filha de Agamennon). Esta é a terceira e maior incursão de Mozart na ‘ópera séria’ (as anteriores, Mitridate e Lucio Silla, foram escritas, respectivamente, em 1770 e 1772).

O cenário é a ilha de Creta, onde Idomeneo vibra ao voltar gloriosamente da guerra de Tróia (fascinante mistura de fatos e mitos) e testemunha a paixão entre Idamante e Ilia. A trajetória da Idomeneo foi um sucesso. Nela, Mozart retrata emoções riquíssimas, intensas e heróicas, “talvez sem paralelo em suas outras obras”, como observa o musicólogo William Christie. Essa sensibilidade traduz-se em vibrante orquestração e extraordinário conjunto de recitativos instrumentais. Lembra Harnoncourt que o quarteto da morte da Idomeneo, escrito por Mozart dez anos antes do Réquiem, já denuncia um traço marcante da personalidade do compositor: a inquietação diante da fatalidade, a morte. 

Ao longo de sua vida, ressalta Harnoncourt, Mozart teve densa ligação emocional com essa ópera, especialmente com o quarteto. (Ele se identificava com Idamante, segundo confessou em diversas cartas ao pai, Leopold.) Delicado, de harmonia concisa e elegante -mas tão iluminado quanto à concepção grandiosa da Idomeneo- é o grande acervo de árias e recitativos compostos por Mozart.

Marino Maradei Jr. é jornalista, radialialista e docente da Faculdade de Comunicação da FAAP.
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Cláudio Cruz regente


José Maurício Nunes Garcia
- Introitus
- Kyrie


Gravada em outubro de 2004 na Sala São Paulo
José Maurício Nunes Garcia escreveu várias obras fúnebres, entre as quais o Réquiem apresentado neste programa, composto em 1816. Esta obra está ligada às cerimônias em homenagem a D. Maria I, rainha de Portugal, que falecera em 20 de março de 1816, no Rio de Janeiro. Este Réquiem, entretanto, não foi executado nas exéquias oficiais, realizadas na Capela Real, como tradicionalmente se acreditava, e sim na Ordem Terceira do Carmo.

A musicografia mauriciana tem ressaltado o fato de a mãe de José Maurício, a mulata Vitória Maria, ter morrido no mesmo dia que D. Maria I, apontando o fato de o Réquiem, dedicado à rainha, ter sido escrito, ao mesmo tempo, em memória de sua mãe. Segundo o Visconde de Taunay, “o Réquiem foi composto entre lágrimas”.

Esta foi a primeira obra de um compositor brasileiro do período colonial editada em nosso País, em 1897, a cargo do compositor Alberto Nepomuceno (1864-1920). Essa edição apresenta modificações importantes em relação aos autógrafos. Mas foi de vital importância na divulgação do compositor carioca, tanto no Brasil quanto no exterior. Várias edições, integrais ou parciais, foram feitas a partir dela, inclusive fora do Brasil, e a peça chegou a ser executada em Roma, Bruxelas e Montevidéu, ainda na passagem do século XIX para XX.

Apenas em 1993 a edição de Cleofe Person de Mattos, publicada na Alemanha, restabelece o contato com os autógrafos mauricianos. Apenas duas gravações integrais da obra, a primeira com a Associação de Canto Coral do Rio de Janeiro, em 1958, e a segunda, mais recente, com o Coro do Morgan State College, registram esse monumento da música brasileira, merecedor de um novo empreendimento fonográfico.

O Réquiem 1816, apresentado neste concerto na edição de Cleofe Person de Mattos, está estruturado em onze seções: Introitus (soli SATB e Coro), Kyrie (Coro), Graduale (soli SATB e Coro), Dies Irae (soli SATB e Coro), Ingemisco (solo Soprano), Inter oves (soli SATB e Coro), Offertorium (solo Baixo e Coro), Sanctus (Coro), Benedictus (soli SAT e Coro), Agnus Dei (Coro) e Communio (Coro).

Muito se tem escrito sobre as semelhanças entre este Réquiem e o de Mozart. É evidente que seções como o Introito, Kyrie, Dies Irae têm motivos claramente derivados da famosa obra do compositor austríaco. Sabe-se que José Maurício dirigiu uma execução do Réquiem de Mozart em 19 de dezembro de 1819, no Rio de Janeiro. É possível que a partitura lhe tenha sido apresentada por Sigismund Neukomm (1778-1858), compositor austríaco, discípulo de Haydn, que chegou ao Rio de Janeiro em abril de 1816, um pouco antes da provável cerimônia onde o Réquiem de José Maurício foi executado. Mas, se há semelhanças motívicas em algumas seções, a maioria delas, da lavra exclusiva do compositor mulato, contém páginas marcantes. 

O Ingemisco é uma das mais louvadas composições do Padre Mestre, desde suas primeiras audições modernas, a partir do final do século XIX, aliando simplicidade com expressividade.O Agnus Dei apresenta um motivo expressivo recorrente nos violinos, extraído do Ofício 1816, obra gêmea deste Réquiem. O Lux eterna, sóbrio e tranqüilo, termina com um grande uníssono de vozes e cordas, como um último grito de agonia ou de libertação.

Carlos Alberto Figueiredo é regente do Coro de Câmera Pro-Arte do Rio de Janeiro e
professor de regência coral e análise musical na Universidade Federal do Estado do
Rio de Janeiro, com pesquisa voltada para a obra de José Maurício Nunes Garcia.
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John Neschling regente


Mikhail Glinka
Abertura

Gravada em outubro de 2008 na Sala São Paulo
Glinka foi criado por uma avó, recluso num lugarejo da zona rural russa, e até a idade de 11 anos nunca ouviu música ocidental, somente sinos de igreja e as canções de camponeses e cocheiros. Mais tarde, como estudante na Alemanha, deu-se conta de que sua missão era a de ‘russificar’ a música russa, que até então se atinha a modelos italianos e germânicos. Sua imaginação naturalmente se desabrochava em ritmos ágeis e admitia o modalismo e a dissonância de origem folclórica, o que o colocou na historia como “pai” da música nacionalista russa, especialmente por conta de suas duas óperas: Uma Vida pelo Czar e Russlan e Ludmila.

O libreto desta última deveria ter sido escrito por Pushkin, mas ele morreu num duelo antes de concretizá-lo. O argumento bizarro – o resgate de uma princesa raptada por um anão maligno – passou então por várias mãos, e o resultado e um dos libretos mais estrambóticos da história, que só é salvo pela música empolgante. Glinka cria o sotaque russo em ópera: contos de fadas, ritmos galopantes, brilho orquestral e o uso de escalas exóticas para representar as forças do mal. A abertura – que não se furta a influencia de Mendelssohn– faz um apanhado dos temas mais memoráveis e é uma showpiece favorita de todas as orquestras.

Fábio Zanon é músico.
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Yan Pascal Tortelier regente

Edward Elgar
XIV. (E.D.U) Finale

Gravada em março de 2009 na Sala São Paulo

O início de Temporada da Osesp em 2009 não poderia ser mais adequado: 5 de março foi recentemente escolhido como o Dia Nacional da Música Clássica. Além disso foi a estreia do novo regente principal da orquestra: o francês Yan Pascal Tortelier, que assumiu oito programas desta temporada, entre eles a abertura e o encerramento da temporada.

Além das novidades, o concerto foi transmitido quase que ao vivo pela TV Cultura, dentro do projeto, Noites Clássicas.
O repertório deste primeiro contato com o público paulista com o regente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo contou com duas grandes obras sinfônicas: Variações Enigma, Op.36, de Edward Elgar, e Sinfonia nº 2 em mi menor, Op.27, de Rachmaninov.

Como a maioria dos grandes compositores da história, Elgar nasceu em circunstâncias bastante humildes. Seu pai era o afinador de pianos de Worcester (cidade medieval do interior da Inglaterra próxima à divisa com o País de Gales). Mais tarde, abriu uma loja de pianos e publicações musicais. Foi desse contexto pouco promissor que surgiu, em 1898, uma obra sinfônica de tanta qualidade que o jovem Edward deixou de enviá-la aos maestros locais e mesmo aos de Birmingham ou Londres. 

Confiante de que havia composto algo especial, Elgar embrulhou a partitura —escrita à mão— em papel marrom amarrado por cordão e enviou o pacote diretamente ao maestro alemão Hans Richter, uma das maiores personalidades musicais da época. O resultado foi dramático, pois Richter mudou o programa de seu próximo concerto em Londres para poder incluir Enigma, e dentro de pouco tempo a obra foi tocada nos Estados Unidos, na Rússia e por toda a Europa. Por mais incrível que pareça, Elgar jamais teve uma aula sequer de composição.

Consequentemente e apesar do reconhecimento oficial que o tornou Sir Edward Elgar em 1904, ele sofreu durante toda a vida com um senso de insegurança e complexo de perseguição dentro do meio musical por se considerar um compositor ‘sem formação’. O fato é que, como Schubert, ele aprendeu emprestando as partituras de Beethoven da loja de seu pai, levando-as a um canto remoto dos campos que cercam sua pequena cidade natal, devorando-as e aprendendo tudo que precisava para formar sua maneira sutil de compor para forças sinfônicas. Particularmente, o uso que faz das dinâmicas múltiplas e simultâneas criou uma variedade muito maior de cores e timbres do que jamais havia sido ouvido antes na música sinfônica.

Graham Griffiths é musicólogo, doutorado pela Universidade de Oxford.
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John Neschling regente


Gravada em abril de 2008 na Sala São Paulo

Autor do Hino à Bandeira, o carioca Francisco Braga foi um menino pobre, que venceu na vida graças à música. Ficou órfão de pai aos oito anos, entrando para o Asilo de Meninos Desvalidos, onde recebeu instrução musical. Uma bolsa de estudos o levou à Europa; estudou no Conservatório de Paris (na classe de composição de Jules Massenet, o autor de Manon), ouviu óperas de Wagner na Alemanha, teve suas obras tocadas por boas orquestras européias. Na volta ao Brasil, aplicou por aqui o saber adquirido lá fora, como professor do Instituto Nacional de Música, no Rio de Janeiro. Relativamente esquecida após seu falecimento, sua obra vem sendo resgatada pela Osesp, que já lançou, no mercado internacional, um CD com a ópera Jupyra e o poema sinfônico Cauchemar.

Para quem já ouviu esse disco, Paysage há de soar como uma obra familiar. A exemplo de Cauchemar, trata-se de uma obra da década de 1890 (Paysage é de 1892; Cauchemar, de 1895), que reflete a formação musical do compositor em Paris. De caráter decididamente romântico, e curta duração, Paysage já prefigura a técnica de orquestração que Braga irá demonstrar posteriormente em poemas sinfônicos de maior ambição, como Insônia e Marabá.

Irineu Franco Perpetuo é jornalista, colaborador do jornal Folha de S.Paulo,
correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).