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Coro da Osesp
Naomi Munakata regente

Gioacchino Rossini
- Et vitam venturi saeculi

Gravada em novembro de 2008 na Sala São Paulo

A Petite Messe solennelle teve sua primeira execução pública em 1869 ―após, portanto, a morte de Rossini―, no Théâtre Italien e na versão orquestral que havia sido elaborada pelo compositor nos anos de 1866-67.

O título da obra é enganador, pois a Petite Messe solennelle ―com duração de cerca de 80 minutos!― não é nem petite nem muito solennelle. Poderíamos acrescentar que a obra tampouco é especialmente litúrgica.

Rossini disse que a Petite Messe solennelle foi o seu “derradeiro pecado mortal de velhice”. O manuscrito da obra contém anotações muito interessantes, que revelam a natureza espirituosa e perspicaz do compositor, ao dirigir-se diretamente a Deus: “Bom Deus. Está concluída esta pobre pequena missa. Será que é mesmo música sacra que eu acabo de fazer ou uma música maldita? Eu nasci para a Opera buffa, tu bem o sabes! Um pouco de conhecimento, um pouco de coração, tudo está lá. Seja abençoado e me conceda o Paraíso.”

Outra divertida anotação de Rossini, alusiva aos 12 cantores que deveriam participar da execução da missa: “…Bom Deus, perdoa-me pela seguinte comparação: doze são os apóstolos no célebre afresco pintado por Leonardo e conhecido como a última Ceia, quem diria? Entre os teus discípulos, alguns desafinam. Senhor, esteja certo, eu declaro que na minha refeição não haverá nenhum Judas e que os meus cantarão com exatidão e ‘con amore’ os Teus Louvores e esta pequena composição que é, pobre de mim, o último pecado mortal de minha velhice.”

Encontramos na Petite Messe solennelle grande variedade de expressão: seções muito interiorizadas contrastam com trechos tempestuosos e associados à vitalidade rítmica, que é uma marca característica de Rossini. O ritmo associado a ricas modulações desempenha papel importante no Kyrie inicial, exaltando-se ainda mais no Gloria e no Credo ―no qual ressaltamos a magnífica escrita contrapontística dos trechos Cum sancto spirito e Et vitam venturi saeculi. 

O admirável solo de tenor Domine Deus remete o ouvinte ao trecho Cujus animam do Stabat Mater, composto em 1842, ao passo que as raízes operísticas rossinianas estão presentes no segmento Quoniam. O movimento O salutaris não fazia parte da Petite Messe solennelle quando esta foi estreada em 1864 e foi provavelmente acrescentado à obra somente em 1866. Trata-se de uma bela ária para soprano, na qual Rossini explora harmonias pouco usuais. O movimento final é um dramático Agnus Dei para contralto ―a tessitura vocal preferida de Rossini― e coro. A voz solista atua em alternância com o coro, que entoa a comovente oração Dona nobis pacem. A obra conclui de modo denso e incisivo.

Esta ‘pequena-grande’ missa é o testamento musical de Rossini. O grande compositor italiano colocou nessa sua obra todo o seu conhecimento, a sua devoção e a sua ousadia.
Richard Osborne, em sua notável biografia de Rossini, afirmou que nesta missa o compositor incluiu elementos extremamente variados, que remetem à música de Palestrina, Bach e Haydn, ao mesmo tempo em que estende o seu olhar para horizontes ainda mais distantes do que Franck, Fauré ou até mesmo Poulenc foram capazes de fazer em suas obras sacras. No entanto, ainda que claramente rossininiana, a partitura está impregnada de uma espiritualidade surpreendente para um compositor que sempre se mostrou pouco religioso e místico.
Amaral Vieira é compositor e pianista.
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Coro da Osesp
Naomi Munakata regente

Gioacchino Rossini
- Kyrie

Gravada em novembro de 2008 na Sala São Paulo

Após ter mudado dramaticamente o rumo de sua vida, ao se retirar da vida artística e desistir da composição em 1830, Gioacchino Rossini criou somente duas obras verdadeiramente importantes no longo período de 38 anos que antecedeu a sua morte.

Curiosamente, trata-se de duas obras de inspiração religiosa: o Stabat Mater composto na Itália em 1842 e a Petite Messe Solennelle escrita em Paris no verão de 1863.

Rossini compôs a Petite Messe Solennelle em sua propriedade de Passy, nos arredores de Paris. A notícia de que o grande mestre italiano havia completado uma nova obra sacra de grande porte causou sensação. Já em agosto de 1863, essa novidade havia atravessado o Atlântico, e a revista norte-americana Aesthetic Magazine publicou um artigo com o título de ‘A Missa misteriosa de Rossini’.

A obra foi concebida para doze cantores (quatro solistas e oito cantores adicionais), dois pianos e harmônio. Apesar de não ser possível comprovar se a missa foi encomendada a Rossini por seus banqueiros e amigos pessoais Conde e Condessa Alexis e Louise Pillet-Will, o manuscrito autógrafo, preservado em Pesaro, reforça essa teoria: traz uma dedicatória à Condessa Louise. 

A composição foi estreada na segunda-feira, dia 14 de março de 1864 às 10 horas da manhã, para um grupo especial de convidados, entre os quais o grande compositor Giacomo Meyerbeer. A ocasião celebrava a consagração da capela particular da nova mansão construída pelo Conde na Rue de Moncey, nº 12.
O Conde e Condessa Pillet-Will e seus familiares eram amigos íntimos de Rossini desde o momento em que o compositor e sua esposa, Olympe, chegaram a Paris vindos de Florença, no final de maio de 1855.

Apesar de a Petite Messe Solennelle ter sido apresentada somente para convidados, informações detalhadas sobre o evento foram divulgadas pela imprensa parisiense. As duas solistas que participaram da estréia da obra foram Carlotta e Barbara Marchisio, respectivamente soprano e contralto ―cantoras que Rossini admirava muito especialmente. As vozes masculinas foram confiadas ao tenor Ítalo Gardoni e ao baixo belga Louis Agniez (mais conhecido como Luigi Agnesi). 

Contrariando as instruções do próprio compositor, que havia previsto na partitura a participação de somente oito cantores no coro, aquele que se apresentou na estréia da missa era formado de quinze alunos do conservatório. Desse modo, dezenove cantores estiveram envolvidos no concerto particular. O conjunto, dirigido por Jules Cohen, contou com Georges Mathias e Andrea Peruzzi, que se encarregaram das partes dos dois pianos, e ainda com Albert Lavignac, que tocou o Harmonicorde-Debain (instrumento construído por Alexandre François Debain e da mesma família do harmônio).

A obra foi apresentada novamente na residência dos Pillet-Will no ano seguinte, na presença de Rossini e com os mesmos intérpretes da estréia e, para que isso se tornasse possível, o Conde trouxe especialmente as irmãs Marchisio de Florença.

Amaral Vieira é compositor e pianista.