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Osesp
Louis Langrée regente

Em agosto de 1791, seu último ano de vida, Mozart recebeu a encomenda de escrever uma ópera para os festejos da coroação do imperador austríaco Leopoldo II, como rei da Boêmia, em Praga — cidade que tão bem acolhera Le Nozze di Figaro e Don Giovanni. O compositor já estava assoberbado com Die Zauberflöte e o Réquiem; contudo, sempre necessitado de dinheiro, aceitou, e a partitura foi finalizada no breve tempo de 18 dias. 

Acredita-se que foi seu aluno, Süssmayr (1766-1803) — que mais tarde completaria o Réquiem inacabado —, quem escreveu todos os recitativos. Com libreto de Pietro Metastasio (1698-1782) — escritor que era o modelo seguido na opera seria —, revisado por Caterino Mazzolà, La Clemenza conta a história do imperador romano Tito e da magnanimidade que demonstra diante dos conspiradores que atentam contra a sua vida. Escrita em cima da hora, a “Abertura” não utiliza temas musicais que reapareceriam ao longo da ópera; serve para criar o clima adequado para a ocasião — formal, porém festivo.
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Osesp
John Nelson regente

Gravada em maio de 2010 na Sala São Paulo.

O final da década de 1840, quando vivia uma fase de euforia, foi especialmente produtivo para Schumann. Após a leitura de alguns poetas, compôs, em 1848, a Canção do Advento, sobre poema de Friedrich Rückert (1788-1866). No ano seguinte, escreveria o Réquiem Para Mignon, baseando-se no romance Wilhelm Meister de J. W. von Goethe (1749-1832). Foi entre 1848 e 1849, depois de completar Genoveva, que o compositor concebeu a música incidental para o poema dramático Manfred, de Lord Byron (1788-1824). Revista em 1851, a música é encabeçada pela “Abertura”, seu trecho mais famoso.

O texto do poeta inglês, de 1817, é ambientado na Suíça; a ação se passa ora no castelo gótico da personagem-título, ora em meio às paisagens, então selvagens, dos Alpes. A obra retrata o herói romântico, que rejeitava tanto o contato humano quanto o conforto das religiões. Manfred é consumido por seu sentimento de culpa por uma transgressão, que envolve Astarte, única mulher que amou, morta por sua causa. Essa heroína espelha a irmã do poeta, com quem manteve uma relação incestuosa, na Inglaterra, antes de iniciar o exílio. São estas as últimas palavras do moribundo Manfred: “Não é tão difícil morrer”.

Schumann, que sempre se identificou com Manfred, esse herói atormentado pela loucura e pela morte, concentrou algo do enredo do texto de Byron na sua dramática abertura orquestral, dominada por três temas principais acompanhados de alguns motivos episódicos. Ainda que obedeça à forma-sonata clássica, a costura das ideias é tramada de maneira a sugerir a liberdade formal de um improviso. O primeiro tema, cromático, é mostrado logo na introdução lenta, evocando a amargura de Astarte. Às vezes, é interrompido por exclamações das cordas em fúria; assim se chega ao segundo motivo, ligado a Manfred, de recorte a um só tempo impulsivo e apaixonado. Essa ideia, por sua vez, engendra o terceiro tema, que simboliza o pedido aterrorizado de Astarte, o qual reintroduz a progressão cromática ascendente do começo.
Depois de todo um trabalho temático baseado em climas que mesclam agitação e dor, a “Abertura” extingue-se numa coda mais apaziguada, que ruma em direção ao silêncio.

J. Jota de Moraes
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Osesp
Isaac Karabtchevsky regente

Gravada em abril de 2010 na Sala São Paulo.

Rimsky-Korsakov emerge de sua autobiografia, Minha Vida Musical (1909) como uma pessoa sumamente equilibrada e dona de si; é surpreendente que uma cabeça tão fresca tenha gerado tanta combustão. Influenciou toda uma geração nacionalista e a imagem que se tem da música russa, propondo um estilo que caminha sobre a fina linha entre Ocidente e Oriente, entre cristianismo e paganismo.

O compositor já tinha um catálogo polpudo de obras orquestrais, incluindo três sinfonias quando, entre 1887 e 1888, regeu a estreia das três obras que fazem dele uma referência suprema na arte da orquestração, além de garantirem sua presença no repertório: o Capricho Espanhol, Op.34; Scheherazade, Op.35 e esta Abertura Grande Páscoa Russa (Svetly Prazdnik, que, em russo significa algo como Feriado Resplandecente), Op.36. A partir dali, ele praticamente só compôs óperas até o final de sua carreira.

Apesar de ser um descrente, era fascinado por temas litúrgicos e, nessa abertura, tentou reproduzir “a impressão da missa na manhã de Páscoa, numa grande catedral apinhada de gente de todas as classes, […] o aspecto legendário e pagão desta festividade, e a transição da solenidade e mistério da noite do Sábado de Aleluia para as irrefreáveis celebrações pagãs-religiosas da manhã de Páscoa”. De fato, a Páscoa ortodoxa reveste-se de um ânimo visceral bem distante da Páscoa católica e cria um contraste marcante com o mistério da Semana Santa.

Para tornar mais vívida sua evocação, o autor baseou-se majoritariamente em temas extraídos de uma antiga coleção de cantos ortodoxos chamada Obikhod. Ao longo da partitura, ele insere pequenas descrições que revelam uma inclinação panteísta. A introdução é dominada por dois hinos, um entoado pelos sopros e o outro pelo violoncelo. As cadências do violino e da flauta representam a luz emanando do Sepulcro no momento da Ressurreição. O allegro que se segue representa os festejos matinais, com o bimbalhar de sinos, ao final, combinado com mais temas litúrgicos e com os temas da introdução num clímax epifânico.

Fabio Zanon
Watch Now:
O Música na Cabeça, parceria da Osesp com o jornal O Estado de S. Paulo, disponibiliza aqui a segunda parte do vídeo de sua segunda palestra, apresentada por José Miguel Wisnik, compositor, pianista e professor livre-docente de Literatura Brasileira na USP.

Além da apresentação, os palestrantes produzem um ensaio sobre o mesmo tema. Leia um trecho abaixo:

“Ultrapassando em muito a dimensão trivial da melodia na mão direita acompanhada por acordes ou arpejos na mão esquerda, assumindo o campo dado pelo piano como um campo de sonoridade total onde planos múltiplos se entrelaçam, se contrapõem e ricocheteiam, Chopin estava experimentando de maneira inaudita, nos seus Estudos e Prelúdios, as possibilidades inexploradas e a fenomenologia da própria onda sonora. Como se estudasse, com meios artesanais e alta imaginação sensível, sem falar nos seus fundamentos emocionais, a complexidade das formas ondulatórias do som, que o laboratório de música eletrônica permitiu conhecer e explorar cientificamente mais de um século depois.

[...] Romântico rigoroso e extremamente autoexigente, improvisador fulminante e inesgotável que escrevia no entanto com lentidão e atormentada angústia, esse músico fazia “ciência” poética com os sons, promovia viagens afetivas ao indizível e elevava os exercícios digitais à esfera dos exercícios espirituais.”

Leia o ensaio O Piano de Chopin, de José Miguel Wisnik.
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O Música na Cabeça, parceria da Osesp com o jornal O Estado de S. Paulo, disponibiliza aqui a segunda parte do vídeo de sua segunda palestra, apresentada por José Miguel Wisnik, compositor, pianista e professor livre-docente de Literatura Brasileira na USP.

Além da apresentação, os palestrantes produzem um ensaio sobre o mesmo tema. Leia um trecho abaixo:

“Ultrapassando em muito a dimensão trivial da melodia na mão direita acompanhada por acordes ou arpejos na mão esquerda, assumindo o campo dado pelo piano como um campo de sonoridade total onde planos múltiplos se entrelaçam, se contrapõem e ricocheteiam, Chopin estava experimentando de maneira inaudita, nos seus Estudos e Prelúdios, as possibilidades inexploradas e a fenomenologia da própria onda sonora. Como se estudasse, com meios artesanais e alta imaginação sensível, sem falar nos seus fundamentos emocionais, a complexidade das formas ondulatórias do som, que o laboratório de música eletrônica permitiu conhecer e explorar cientificamente mais de um século depois.

[...] Romântico rigoroso e extremamente autoexigente, improvisador fulminante e inesgotável que escrevia no entanto com lentidão e atormentada angústia, esse músico fazia “ciência” poética com os sons, promovia viagens afetivas ao indizível e elevava os exercícios digitais à esfera dos exercícios espirituais.”