00:0000:00
 “Entre a melodia cantada e a fala cotidiana, uma canção popular se situa como um ponto mágico que concentra o apelo estético e a persuasão da comunicação. “A voz e o verso” constituem assim um núcleo de sentido que por si só bastaria para reconhecermos uma canção. No entanto, ao unir o artesanato cancional à escrita para quarteto de cordas, propõe-se uma rede de significados, em que os laços entre o som e o sentido são fortalecidos pela polifonia.

São cinco vozes, e não somente a voz do intérprete cantor, que vêm participar dessa conversão do efêmero no perene, da comunicação pura que transmite uma mensagem oral à fruição estética que, em diferentes graus, sensibiliza e se faz perdurar em cada ouvinte. Cinco ou mais vozes, se fizermos jus às vozes dos parceiros letristas, convidados para a empreitada.”

É no mínimo curioso que cada um, sem estar inteiramente consciente da produção do outro, tenha decidido comentar esse encontro entre a palavra e a voz. “Parceria”, com letra de Mauro Aguiar, traz a figura de um sujeito que diante do branco do papel e de uma melodia deseja “romper o chão” e “lançar ao céu” a palavra, e para tanto reconhece que somente o encontro com a voz “que sabe desatar nós” pode alcançar tal gesto. Em “Canção em Quatro Partes”, Makely Ka relaciona quatro momentos do dia (Aurora, Mormaço, Noite e Madrugada) e diferentes estados de consciência (Vigília, Surto, Sonho e Coma) de um sujeito que anseia encontrar uma voz que apenas se insinua ao longo do texto. Bernardo Maranhão cria em “A voz e o verso” correspondências entre a imagem de um jangadeiro a tecer redes, o singrar da jangada entre as ondas, e o ato de criar — em especial, o ato de compor uma canção, refletindo justamente sobre a natureza híbrida do texto cancional.

O já mencionado núcleo de sentido (sobre o qual o teórico Luiz Tatit erigiu um modelo de análise que se tornou uma das principais referências nos estudos especializados em canção popular) concentra, sem sombra de dúvida, o foco dos esforços criativos daqueles que se atrevem a contribuir, com traços pessoais, com essa intensa (e imensa) produção de canções, traço que singulariza a expressão (especialmente musical) do Brasil. E quando um compositor de canções, cuja formação musical permite aceitar, ao menos como desafio, uma incursão em território tão caro à cultura musical erudita, como é o da escrita para quarteto de cordas, o que se pode esperar é uma relação dialógica, enlace amoroso entre duas formas distintas de expressão musical. 

Esperas, silêncios, gestos abruptos ou lânguidos do quarteto fundem-se às pausas, consoantes e vogais, num jogo em que cada voz somente diz o que possa ser imediatamente integrado ao todo: a canção. Por isso, os parâmetros devem ser outros, não aqueles pelos quais se possa pautar a escuta de um quarteto de cordas de um jovem autor. Não há negação nem superação de nada que já tenha sido escrito para essa formação, mas sim reverência e irreverência, desde que no fim se favoreça a palavra cantada.”
Kristoff Silva