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Osesp

John Neschling regente

Gravada em julho de 2004 na Sala São Paulo

Em breve, esta obra será lançada em CD pelo selo Biscoito Fino

Brahms a qualificou como “um pot-pourri de canções estudantis à la Suppé”. Composta no verão de 1880, foi uma retribuição ao título honoris causa que recebera da Universidade de Breslau no ano anterior. O texto do diploma dado a Brahms o reconhecia como “o mais famoso compositor alemão vivo de música séria”, mas de séria, a Abertura não tem nada.

A Abertura do Festival Acadêmico é obra engenhosa em seus econômicos 10 minutos, pois utiliza uma série de canções estudantis bastante populares na época ―daí a referência a Franz von Suppé, célebre autor vienense de operetas, incluindo Os alegres Estudantes, de 1863, que contém uma dessas canções de estudantes aproveitada por Brahms na sua Abertura. Entretanto, a composição vai além da mera colcha de retalhos que aparenta ser, ao incluir um coral luterano nos trompetes, um hino à beleza e até uma canção marota, usada como mote nas temporadas de “caça aos bichos” ou calouros, nas universidades alemãs: ela começa gaiata nos fagotes e depois se espalha por toda a massa sinfônica.

A sutileza fica por conta da estrutura da peça, interessante do ponto de vista formal, pois as canções integram-se numa forma-sonata diferente, ampliada. Apesar de ele mesmo ter-lhe dado o nome de Abertura do Festival Acadêmico, Brahms pensou em substituí-lo por Abertura Janízara, em referência ao uso, no efetivo sinfônico, de instrumentos tipicamente turcos –como o tambor turco (bumbo com duas peles tocado pela banda dos janízaros suspenso no ombro ou pescoço), prato turco e o triângulo.

João Marcos Coelho é jornalista e crítico musical.
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Coro da Osesp
Naomi Munakata regente



Gravado em 18 de outubro de 2003

Do moteto Judas, Mercator pessimus, sabemos a data da composição, 1809, e a destinação, para o Ofertório da Missa de Quinta-feira Santa, através de manuscrito de Bento das Mercês —cantor da Capela Imperial e colecionador de José Maurício—, pertencente à Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Apesar de intitulado moteto a seis vozes, é, de fato, a cinco, com dobramento de baixo em algumas passagens. A composição segue a divisão do texto litúrgico, originalmente um Responsório das Matinas de Quinta-feira Santa, sobre o episódio da traição de Judas. Iniciado homofonicamente, a segunda parte, correspondente ao coro, nos Responsórios, é um fugato, que alterna com o Versículo, cantado por quatro solistas.

O padre José Maurício Nunes Garcia escreveu, com sua obra, importante capítulo da história da música brasileira. Nascido no Rio de Janeiro em 1767, quando a cidade era ainda apenas a capital da colônia portuguesa, filho de pais mulatos de condição humilde e órfão de pai aos seis anos, aos 16 compôs a antífona Tota Pulchra, para coro, orquestra e soprano solo. Um ano depois, em 1784, participava da fundação da Irmandade de Santa Cecília, associação destinada a supervisionar a formação e defender os interesses dos músicos. Antes dos 18 era, portanto, um músico profissional.

Na então capital da colonial, o caminho mais propício ao desenvolvimento de uma vocação musical, talvez o único, era o da música sacra. Assim, José Maurício compôs, em 1788, uma Ladainha, hoje perdida e, no ano seguinte, um Pange Lingua escrita a cappella. Em 1792 tornou-se padre, uma forma de ascensão social, e a partir de então produziu extensa obra religiosa, missas, ofícios fúnebres, antífonas, motetos, obras para a Semana Santa, além de algumas profanas vocais e instrumentais, entre elas a modinha Beijo a Mão que me Condena e a Abertura Zemira (1803).

Com a vinda de D. João VI para o Brasil, em 1808, fugindo das invasões napoleônicas, renovaram-se as condições da atividade musical no Rio de Janeiro. Instrumentistas e cantores portugueses vieram formar a Capela Real. Em novembro do mesmo ano José Maurício foi nomeado mestre-de-capela, organista e professor, desenvolvendo intensa atividade nos três anos seguintes. Sua posição declinou a partir de 1811 com a chegada do compositor português Marcos Portugal (1762-1830) ao Rio de Janeiro, mas, em 1816, escreveu sua obra mais famosa, a Missa de Réquiem, e também o Ofício dos Defuntos.

No mesmo ano, chegou ao Brasil o compositor austríaco Sigismund Ritter von Neukomm (1778-1858), que se tornou seu amigo e o incentivou a realizar a primeira audição no Rio de Janeiro do Réquiem de Mozart, em 1819. Posteriormente, Neukomm escreveu no Allgemeine Musikalishe Zeitung de Viena, chamando a atenção dos leitores europeus para o compositor brasileiro. A última obra de José Maurício foi A Missa a Grande Orquestra, conhecido como Missa de Santa Cecília, composta a pedido da Irmandade de Santa Cecília em 1826 e executada em 22 de novembro do mesmo ano.

Falecido em condições de penúria em abril de 1830, José Maurício manteve por 28 anos um curso de música, que funcionou à Rua das Marrecas e foi o embrião do Conservatório de Música (depois Escola Nacional de Música), criado por seu aluno Francisco Manuel da Silva, em 1841.

As obras corais a cappella constituem exceção dentro das composições do padre José Maurício. Como observa Cleofe Person de Mattos, “o canto desacompanhado não era prática corrente no Brasil”. Cantava-se a cappella durante a Semana Santa ou em procissões que se realizavam no interior das igrejas, na Quinta-feira Santa e no Domingo de Ramos.

Roberto Dante Cavalheiro é professor da Academia da Osesp, da Escola Municipal de Música de São Paulo e da Faculdade Santa Marcelina.