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Osesp
John Neschling regente


Johannes Brahms
I. un poco sostenuto / allegro


Gravada em outubro de 2007 na Sala São Paulo

Lançado em CD pelo selo Biscoito Fino
(Em breve, lançamento do 2º volume da série com Sinfonia nº 3 e Abertura do Festival Acadêmico)

Brahms trabalhou de modo insano em sua primeira sinfonia durante quinze anos, até considerá-la pronta para a estréia em 1876, em Karlsruhe. Mesmo assim, ainda fez inúmeros retoques e modificações em sua partitura nos anos seguintes. Por isso, tornou-se lugar-comum afirmar que talvez nenhuma outra obra tenha sido realizada tão penosamente e sob tão opressivo senso de responsabilidade na história do gênero (Malcolm MacDonald).

De fato, a ênfase no domínio técnico da arte da composição, a obstinação em recusar a novidade pela novidade e o olhar para o passado de modo crítico são os pilares de sua criatividade.

Certa ocasião, debateu com o jovem Gustav Mahler questões sobre o fim da música. Eles caminhavam ao lado de um riacho cujas águas desembocavam num lago. Registra Richard Specht, contemporâneo de ambos, que de repente Mahler pegou Brahms pelo braço e com o outro apontou excitado para a água: “Mas olhe, Herr Doktor, olhe!” – “O que é isso?”, perguntou Brahms. “Olhe, lá vai a última onda.” Brahms rebateu: “Tudo bem, mas quem sabe a questão central seja saber se a onda caminha para o lago ou para o brejo”.

Talvez o aspecto mais radical da música de Brahms seja este: ele foi o primeiro a enfrentar o problema de compor para platéias familiarizadas com a grande ‘música do passado’ ―então recente―, praticamente dominado pela obra e figura de Beethoven. Enquanto Wagner e Liszt usavam novas ferramentas para criar a obra de arte do futuro, Brahms concentrou-se no grande cânone sinfônico ―e tratou de criar uma obra original mesmo sem romper com tais parâmetros. Aí está a genialidade dele e também, como escreve o pesquisador Peter Burkholder, sua modernidade. “Ele é o mais moderno e imitado dos compositores do final do século XIX. É, individualmente, o mais importante para a música do século XX. Não no modo como sua música soa, mas em como pensamos sobre ela”.

A outra característica essencial de Brahms emerge de modo claríssimo nesta Primeira Sinfonia em dó menor. Como observa o musicólogo e regente Nikolaus Harnoncourt, “não há dúvida de que a gênese desmedidamente estendida no tempo da Primeira Sinfonia tem a ver com a postura mental de Brahms. Ele deve ter sido muito preciso como músico e artista e deve ter trabalhado com o que chamo de ‘precisão gótica’. Refiro-me às estátuas das igrejas góticas, em que o escultor foi até o detalhe mais ínfimo, inclusive em áreas que em absoluto podem ser vistas. Vejo certa similaridade entre esta perfeição gótica e a atitude de Brahms em seu trabalho criativo”.

Esta meticulosidade, este escrúpulo, a sensação permanente de se perguntar ‘será que é isso mesmo que eu quero?’, resultam numa obra que simplesmente não apresenta falhas. Ela já foi chamada de Sinfonia Clara, porque Brahms utiliza na obra um tema de trompa dos Alpes num cartão de aniversário com uma melodia rabiscada que enviou a Clara em 1868, com os dizeres: “Assim soa hoje a trompa do pastor. No alto da montanha, no fundo do vale, lhe envio mil lembranças”.

MacDonald acentua que, apesar de obedecer estritamente ao esquema da sinfonia beethoveniana, Brahms transfere todo o peso da obra para o movimento final, de duração igual à do un poco sostenuto/allegro inicial (ambos em torno dos 17 minutos). E é justamente neste adagio - piu andante - allegro non troppo, ma con brio que Brahms constrói um tema parecido demais com o da Ode à Alegria, da Nona Sinfonia de Beethoven. Quando um crítico apressado apontou a semelhança e apelidou a obra de “a décima sinfonia de Beethoven”, Brahms irritou-se: “Qualquer idiota percebe isso”, disparou. Com razão.

João Marcos Coelho é jornalista, crítico musical e apresenta o programa “O Que Há de Novo” na Rádio Cultura FM.